A Líbia antes dos bárbaros bombardeios da OTAN em 2011 era
um país próspero, com um sistema de educação pública e saúde universais, ambos
gratuitos, no qual 94% da população estava alfabetizada e a expectativa de vida
do cidadão beirava a casa dos 72 anos de idade – muito superior a vários países
da América Latina e até mesmo europeu! Possuía um dos mais avançados sistemas
de irrigação e distribuição de água do mundo. Tudo isso graças à revolução
nacionalista de Muammar al-Gaddafi que derrotou e expulsou do trono a
reacionária monarquia do rei Idris. Porém, esta situação estava com seus dias
contados pelas grandes potências capitalistas. O “start” da guerra de rapina
contra o coronel Gaddafi aconteceu quando este declarou que iria nacionalizar o
petróleo, o que despertou a ira das grandes empresas multinacionais situadas em
Benghazi, de onde emergiram os “rebeldes”. Não tardou para que este segmento
associado ao capital estrangeiro se voltasse contra o regime nacionalista de
Kadafi. EUA, Inglaterra, Alemanha, Turquia, Suécia trataram logo de apoiar os
ditos “rebeldes”. O Pentágono e a Casa Branca impuseram que a ONU e ao Conselho
de Segurança no dia 17 de março de 2011 determinasse uma “zona de exclusão
aérea” em Benghazi para “proteger os civis” na região. Foi dado o sinal para
iniciar o massacre do povo líbio e suas conquistas sociais, que durante longos
e abomináveis sete meses fora selvagemente bombardeado pela coalizão ocidental
na OTAN. Ao fim da guerra, o caos tribal e um país aniquilado do qual a
população em desespero procura a fuga através do Mediterrâneo em direção à
Europa infestada por governos cada vez mais de direita e com leis anti-imigrantes.
Em 20 de outubro de 2011 o “mundo democrático” estava livre
de mais um “sanguinário ditador”. Um asqueroso artigo do Foreign Affairs afirma
que “A operação da OTAN na Líbia foi corretamente saudada como intervenção
modelo (sic). A aliança respondeu rapidamente a situação que se deteriorava e
ameaçava centenas de milhares de civis em rebelião contra regime opressor.
Conseguiu proteger aqueles civis e, de fato, garantir o tempo e o espaço
necessários para que as forças locais derrubassem Muammar al-Gaddafi”
(Almirante James G). Que modo frondoso de compreender o que foi a “Primavera
árabe”, de causar comoção humanitária a seus defensores da esquerda (PSTU/LIT,
PCO, LER-QI etc.), os quais sem o menor rubor e critério de classe caracterizaram
os “rebeldes” como “autênticos revolucionários que lutavam contra a tirania
assassina e corrupta” e que, portanto deveriam receber armas das grandes
potências “democráticas”!
Uma análise pós-regime Gaddafi foi feita por ninguém menos
suspeito, a CNN, que não pode ser acusada de esquerdista: “Assassinatos,
sequestros, bloqueios de refinarias, milícias rivais que lutam nas ruas,
extremistas islamistas acampados e, sobretudo, governo cronicamente fraco
fizeram da Líbia lugar perigoso, cuja instabilidade já respinga através de
fronteiras e para o Mediterrâneo. Verdade é que a Líbia está convertida em
estado fora da lei”. Eis o que foi a “intervenção modelo” de Obama/Cameron,
simplesmente devastou um país inteiro em nome do lucro com o estado permanente
de guerra. Segundo um relatório do Royal Bank of Scotland, “O Oriente Médio é
uma das regiões com o maior número de oportunidades para companhias britânicas
de defesa e segurança. A Arábia Saudita... é o principal importador de defesa
do mundo, tendo gasto US$56 mil milhões em 2009... uma região muito valiosa a
visar”. Portanto, banqueiros, alegrem-se!
Por exemplo, a cidade portuária de Misrata comporta hoje o
que há de pior em termos de criminalidade, abrigando a máfia turca judaica a
qual expulsou ou assassinou a população local, principalmente os partidários ou
simpatizantes de Gaddafi. Pratica com sistematicidade a tortura e as execuções
sumárias sem que nenhuma ONG “humanitária” se indigne ou denuncie. Os
criminosos de Misrata promovem constantes ataques a Trípoli e a diversas tribos
a fim de impor controle sobre o território líbio, disseminando o medo e o
macabro tráfico internacional de órgãos humanos com a proteção dileta dos EUA,
Arábia Saudita e Qatar. A miséria expõe a população líbia a toda sorte de
horrores, antes pelas bombas da OTAN agora pelas guerras tribais e os
esquadrões da morte. Cidades inteiras foram cercadas, cortados os suprimentos
alimentícios e a água. As canalizações extremamente sofisticadas do maior rio
artificial do mundo feito sobre os lençóis freáticos do Rio Nilo que abasteciam
as grandes cidades e aldeias foi completamente destruído pelo bombardeio
cirúrgico da OTAN. Tawarga que antes abrigava cerca de dez mil habitantes hoje
é uma cidade fantasma, abandonada.
O país inteiro sofreu com a guerra de rapina levada a cabo
pelos EUA e Europa. Sua infraestrutura básica foi devastada. Em razão deste
“vazio”, o norte da África está sendo ocupado militarmente por bandos armados
do Estado Islâmico e Amsar Sharia (este dominando Benghazi). Bandos, aliás,
financiados e armados pelo Pentágono e a CIA para combater Bashar Al Assad na
Síria e Saddam Hussein no Iraque que ora se voltam contra seus amos.
EUROPA E ESTADOS UNIDOS OS RESPONSÁVEIS PELAS FUGAS
DESESPERADAS ATRAVÉS DO MEDITERRÂNEO
O Magreb tem uma formação social bastante peculiar. Diversos
grupos étnicos compõem a Líbia (tribos e clãs), são árabes, berberes, tuaregues
e tebus (não-árabes do sul). Aqui o cimento social fora outrora a lealdade
tribal, da qual tudo dependia para funcionar como proteção social e promover
empregos. Os ataques da OTAN, no entanto, dissolveram estes laços atávicos e
consuetudinários da população, de unidade e estabilidade social. Foram mais de
dez mil bombardeios sobre uma população indefesa e desarmada, mais de 40 mil
bombas sobre suas cabeças. Milhares de corpos espalhados pelo país.
Como resultado da desintegração social, política e econômica
do Magreb, e particularmente da Líbia, as grandes potências ocidentais e sua
imprensa corporativa passaram a acusar “traficantes” de gente pela morte por
afogamento e maus tratos de imigrantes líbios, tunisianos, egípcios, sírios,
iemenitas etc. durante travessias pelas águas turbulentas do Mediterrâneo rumo
à Europa. Contudo, a verdade é bem outra. Os responsáveis por esta barbárie são
precisamente os EUA e seus consortes europeus que rapinaram e destruíram todas
as obras sociais na Líbia e no norte africano. Somente durante os ataques
“humanitários” da OTAN milhares de líbios em fuga morreram tentando atravessar
o mar Mediterrâneo, fato deliberadamente ocultado pela grande mídia
corporativa. Nos dias atuais, a Líbia tem se convertido na porta de saída da
desesperada população do Magreb e arredores que não veem nenhuma perspectiva em
seus países de origem. Um tremendo retrocesso, pois isto não acontecia durante
o governo nacionalista de Gaddafi, ao menos na escala atual, uma vez que toda a
riqueza agora está concentrada nas mãos de gangues e multinacionais americanas.
O número de morte dos que tentam penetrar na fortaleza Europa permeada por
políticas anti-imigrantes ultrapassa os 600% em relação entre 2011 e 2015. Para
o imperialismo, as guerras tribais tem a função precisa de exterminar a
população e assim evitar a migração e possíveis descontentes com a situação
política de caos social. Para a população oprimida não há solução: ou morre de
fome, ou na guerra ou no fundo do mar. Em um só naufrágio, próximo à costa da Sicília,
quase 600 pessoas morreram de uma vez.
A ORDEM É MATAR JÁ NO MAR, OU OS QUE ESCAPAREM ESCRAVIZÁ-LOS
A União Europeia já encontrou uma “solução” para o problema
das balsas superlotadas e os consequentes naufrágios: bombardear os barcos
antes de eles irem a pique através de uma operação naval militar, supostamente
para combater os traficantes de gente!!! Em seu twitter a chefe da diplomacia
europeia, Federica Mogherini, afirmou que “foi tomada a decisão de iniciar a
operação militar naval com o objetivo de destruir o negócio de contrabandistas
e traficantes de pessoas que agem no mar Mediterrâneo” (18/5/2015). Neste
sentido, a Comissão Europeia aprovou o seguinte texto: “tomar todas as medidas
necessárias contra um barco ou ativos relacionados, inclusive eliminá-los ou
torná-los inoperacionais”. A Itália declarou que os imigrantes que adentrarem
no país deverão “trabalhar de graça para não ficarem sem fazer nada”, ou seja,
devem se tornar escravos.
Os EUA e seus cúmplices europeus são os verdadeiros
responsáveis pelas mortes dos imigrantes “ilegais” no Mediterrâneo ao difundir
a miséria e a calamidade social no norte africano e em todo o chamado mundo
árabe. Esta é a perspectiva para as novas investidas do império do norte tanto
na América Latina como na Ásia, na condição de ave de rapina em nível mundial e
de polícia que arbitra a seu favor litígios internacionais. O Pentágono está
planejando uma nova ofensiva no Magreb e Iraque, a pretexto de “combater” o
Estado Islâmico. A “primavera árabe” ou “revolução árabe”, como muitas
correntes de esquerda qualificam o movimento contrarrevolucionário levado a
cabo pelo Departamento de Estado dos EUA e pelo Mossad não desabrochou em
flores, mas apontou os duros espinhos do reacionarismo em todo o planeta. Nesta
“primavera” apenas brotaram cadáveres em solo e em mar, a fuga a qualquer preço
a deixar os ratos que infestam as ruínas para trás – e amiúde única fonte de
alimentação dos habitantes - de uma nação outrora próspera e desenvolvida. Onde
existia a Líbia agora jaz um arremedo de país e seus ratos “rebeldes”...

