“A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me
dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre
dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a
utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
Este artigo não pretende traçar a biografia do renomado
escritor, mas fazer um rápido apanhado de como a mídia corporativa “homenageou”
Galeano, quem por suas ideias e propostas culturais antiamericanas foi
perseguido e jurado de morte pelos ditadores militares que varreram a
democracia na Argentina, Chile, Uruguai, Brasil, Paraguai. Não poderia ser de
outra forma senão espezinhando a trajetória política de intelectual
progressista que combatia através da luta ideológica a sanha colonialista do
império do norte e de seus consortes europeus em cima da América Latina,
amiudadamente distorcendo declarações e dando asas a interpretações grotescas.
Como “alvo” principal a mídia bombardeou a obra máxima de Galeano, “As veias
abertas da América Latina”, qualificando-a como um “libelo esquerdista
anacrônico” corroborando com a declaração do autor segundo o qual “não teria
paciência para lê-la novamente”.
Não se trata de renegar a sua obra mais conhecida – tal como
fez Fernando Henrique Cardoso quem afirmou “esqueçam o que escrevi” – o que
Galeano disse foi que há época que redigiu o livro era muito jovem e não tinha
o domínio dos principais conceitos de economia e relações internacionais, ou
seja, da economia política, não tinha o preparo e maturidade para elaborar um
bom texto (e fico imaginando SE fosse um texto ruim!). Tanto é verdade que
novas traduções foram acompanhadas e discutidas de perto, com muito interesse
pelo mestre que sempre apresenta-nos um orgulho inato, atávico, de sua obra imersa
inapelavelmente na perspectiva histórica da narrativa. Dados e algumas
informações mudam, mas a importância do livro para a compreensão da realidade
nua e crua da América Latina isso não se altera como base teórica da divisão
internacional do trabalho, onde uns países se especializam em açambarcar a
riqueza alheia, e outros em serem saqueados em associação com os primeiros. “Passaram-se
os séculos e a América Latina aperfeiçoou suas funções. Ela já não é o reino
das maravilhas em que a realidade superava a fábula e a imaginação era
humilhada pelos troféus da conquista, as jazidas de ouro e as montanhas de
prata. Mas a região segue trabalhando como serviçal, continua existindo para
satisfazer as necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro,
cobre e carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos, destinados aos países
ricos...” (As veias abertas da América Latina). Deixou claro que jamais se
arrependeu de ter escrito esta obra, o que poderia ter feito era melhora-la se
possível: “Não estamos vivendo a infância do capitalismo, somos um produto
deformado do desenvolvimento alheio. Não há nenhuma riqueza que seja inocente
da pobreza dos outros. O abismo que separa os que têm dos que necessitam é hoje
muito maior do que quando eu escrevi o livro” (Estadão, 13/7/2014).
Passados quarenta anos da publicação da sua obra máxima, o
que mais causa torpor na grande mídia e na opinião pública burguesa é o tom
acentuadamente militante e de proximidade do marxismo que permeia o livro, o
caráter de indignação quanto ao grau predatório dos imperialismos ianque e
europeu ao longo da história e a clara sugestão a título de conclusão, a de que
somente o socialismo poderá romper com a fronteira do colonialismo, da América
Latina ser praticamente uma vendedora de commodities.
Certamente o mundo perdeu mais uma cabeça pensante que se
opunha à hegemonia militar, econômica e política do imperialismo
norte-americano a qual é transformada em atrocidades sobre todos os povos do
planeta. O escritor, poeta, ensaísta e boêmio nos deixou, mas a sua obra, em
que pese alguns equívocos, será imortalizada em nossa memória, na condição de
um grande ícone e referencial político para o pensamento de esquerda.
