“Stalin havia
confessado a Kamenev e Dzerzhinski, seus aliados da época, que seu maior prazer
na vida era vigiar atentamente um inimigo, preparar tudo nos mínimos detalhes,
vingar-se dele sem compaixão, e depois ir dormir.”
Durante os dez anos do meu atual exílio, os agentes literários do
Kremlin vêm se livrando da necessidade de responder adequadamente a qualquer
coisa que eu escreva sobre a URSS, fazendo alusões ao meu “rancor” por Stalin.
Contudo, Stalin e eu fomos separados por eventos tão inflamáveis que todos os
sentimentos pessoais foram consumidos pelas chamas e reduzidos a cinzas. Stalin
é meu inimigo. Mas também Hitler é meu inimigo, também Mussolini o é, e também
muitos outros. Hoje me restam muito poucos sentimentos pessoais dirigidos a
Stalin. É como se se tratasse do general Franco ou do Mikado.
Apresento nesse artigo fatos surpreendentes a respeito de como um
revolucionário provinciano se tornou o ditador de um grande país. Todos os
fatos que menciono, todas as referências e citações, podem ser confirmados por
publicações soviéticas oficiais ou por documentos conservados em meus arquivos.
O último período da vida de Lênin foi cheio de intensos conflitos entre
ele e Stalin, que culminaram numa completa ruptura entre os dois. Como sempre,
não havia nada de pessoal em relação à hostilidade que Lênin nutria por Stalin.
Mas à medida que corria o tempo, Stalin tirou vantagens crescentes das
oportunidades que seu cargo apresentava para se vingar de seus oponentes. Pouco
a pouco, Lênin se convenceu de que alguns traços da personalidade de Stalin eram
claramente hostis ao partido. Daí amadureceu sua decisão de reduzir Stalin a um
simples membro do Comitê Central.
A saúde de Lênin sofreu uma súbita piora no final de 1921. A primeira
crise aconteceu em maio de 1922. Durante dois meses ele foi incapaz de se
mover, falar ou escrever. Em julho, ele começou uma lenta convalescença. Em
outubro, voltou do campo para o Kremlin e assumiu novamente o seu trabalho. Em
dezembro, abriu fogo contra as perseguições de Stalin. Declarou-se contrário a
Stalin na questão do monopólio do comércio exterior e estava preparando para o
próximo congresso do partido um discurso que seria uma “bomba contra Stalin”.
“Falemos francamente”, escreveu Lênin em 2 de março, “O Comissariado da
Inspeção não desfruta hoje da menor autoridade... Não há entre nós instituição
pior que o nosso Comissariado de inspeção do Povo”. Na chefia da inspeção
estava Stalin. Ele compreendeu muito bem as implicações dessas palavras.
Em meados de dezembro de 1922, a saúde de Lênin o obrigou a ausentar-se
da conferência. Imediatamente, Stalin passou a esconder de Lênin muitas
informações. Blocos de medidas foram instituídos contra as pessoas mais
próximas a Lênin. Lênin se inflamou, alarmado e indignado. Sua principal fonte
de preocupação era Stalin cujo comportamento se tornava mais confiante à medida
que os relatórios dos médicos sobre a saúde de Lênin se tornavam menos
favoráveis. Naqueles dias, Stalin se mostrava taciturno, ríspido com seu
cachimbo firmemente preso entre os dentes e um brilho sinistro nos olhos
amarelados. Seu destino estava em jogo.
Várias linhas ditadas por Lênin em 5 de março de 1923 a um estenógrafo
de confiança anunciaram secamente a ruptura de “todas as relações pessoais e de
camaradagem com Stalin”. Essa nota é o último documento sobrevivente de Lênin.
Exatamente na noite seguinte, ele perdeu sua capacidade de falar.
O chamado “testamento” de Lênin foi escrito em duas ocasiões durante
sua segunda enfermidade: em 25 de dezembro de 1922 e em 4 de janeiro de 1923.
“Stalin, tendo se tornado secretário-geral”, declara o testamento, “concentrou
um imenso poder em suas mãos e não estou certo de que ele sempre saiba como
usar esse poder com suficiente cautela”. Dez dias mais tarde, Lênin
acrescentou: “Proponho aos camaradas procurar uma maneira de retirar Stalin
desse posto e nomear para tal cargo um outro homem”, que seria “mais leal,
menos inconstante” etc.
Quando Stalin leu pela primeira vez o texto, vociferou palavrões
dirigidos a Lênin. O testamento não só não conseguiu pôr um fim à luta interna,
que era o que Lênin desejava, mas a intensificou ao mais alto grau. Stalin não
mais poderia duvidar de que o retorno de Lênin à atividade significaria sua
própria morte política. Apenas a morte de Lênin poderia abrir o caminho para
ele.
Acompanhei, dia-a-dia, o curso da segunda enfermidade de Lênin através
do médico que tínhamos em comum, o Dr. Gaitier.
“É possível, doutor que isso, seja o fim?”, minha esposa e eu lhe
perguntamos várias vezes.
“Isso é algo que realmente não se pode afirmar. Vladimir Ilyich pode
conseguir ficar de pé novamente. Ele tem um organismo forte”.
“E suas faculdades mentais?”.
“Basicamente, ficarão intactas.
Nem todas as notas, talvez, manterão sua pureza anterior, mas o
virtuose continuará, um virtuose”.
Entretanto, numa reunião dos membros do Politburo, com Zinoviev,
Kamenev e eu, Stalin nos informou, depois que o secretário saiu, que Lênin o
havia chamado de repente e lhe pedira veneno. Lênin estava perdendo a fala
outra vez, considerava sua situação sem esperanças, previa que iria ter um novo
derrame e não confiava nos seus médicos. Sua mente estava perfeitamente clara e
seu sofrimento era insuportável.
Lembro-me que, ao ver o rosto de Stalin naquele momento, achei-o
estranho, enigmático e fora de sintonia com as circunstâncias. Tinha um sorriso
doentio, fixo como uma máscara. Lembro-me da expressão de Kamenev, pálido e
silencioso, ele que gostava de Lênin sinceramente, e a de Zinoviev, perplexo
como em todos os momentos difíceis. Será que Stalin já tinha lhes revelado o
pedido de Lênin? Ou será que para eles, seus aliados no triunvirato, o fato
vinha como uma surpresa, tanto quanto para mim?
“Naturalmente, não podemos nem levar em consideração esse pedido”! —
exclamei. “O Dr. Gaitier ainda não perdeu a esperança. Lênin ainda pode se
recuperar”.
“Eu já disse a ele tudo isso”, respondeu Stalin com certa irritação.
“Mas ele não quer ouvir a voz do bom senso. O velho está sofrendo e diz que
quer ter o veneno à mão. Vai usá-lo quando estiver convencido que seu estado não
tem mais solução”.
“O velho está sofrendo”, Stalin repetiu, com o olhar vago. Não houve
votação, já que não estávamos numa reunião formal, mas quando nos despedimos
havia um consenso implícito de que trazer veneno a Lênin estava fora de
cogitação.
Antes de sair, insisti: “Isso está fora de cogitação. Ele pode sucumbir
a uma depressão passageira e dar um passo sem volta”.
Apenas alguns dias antes, Lênin havia escrito o implacável pós-escrito
ao seu testamento. Alguns dias depois, rompeu todas as relações pessoais com
Stalin. Por que, então, haveria de fazer esse seu trágico pedido justamente a
Stalin? A resposta é simples: ele acreditava que Stalin seria a única pessoa
que concordaria com seu pedido; uma vez que tinha interesse direto em fazê-lo.
Ao mesmo tempo, é possível que ele quisesse colocar Stalin à prova, para
verificar se esse de fato aproveitaria a oportunidade. Naqueles dias, Lênin não
pensava apenas na morte, mas também no destino do partido.
Mas será que Lênin de fato pediu veneno a Stalin? Ou terá sido essa
história toda nada mais que uma invenção de Stalin para preparar o seu álibi?
Ele não tinha por que temer uma investigação, pois ninguém poderia interrogar
Lênin, já tão doente.
Mais de dez anos antes dos famosos processos de Moscou, Stalin havia
confessado a Kamenev e Dzerzhinski, seus aliados da época, que seu maior prazer
na vida era vigiar atentamente um inimigo, preparar tudo nos mínimos detalhes,
vingar-se dele sem compaixão, e depois ir dormir.
* * *
Durante o último dos grandes julgamentos, realizado em março de 1938,
um lugar especial no banco dos réus foi ocupado por Henry Yagoda. Havia uma
ligação secreta entre Stalin e Yagoda, que trabalhara na Cheka e na GPU durante
16 anos, primeiro como chefe-assistente e depois como chefe, atuando o tempo
todo como o auxiliar de maior confiança de Stalin contra a oposição. O sistema
de confessar crimes que nunca foram cometidos foi posto em prática, se não
criado, por Yagoda. Em 1933, Stalin premiou Yagoda com a Ordem de Lênin, e em
1935 o promoveu a comissário-geral da Defesa do Estado, ou seja, marechal da
Polícia Política. Agraciar Yagoda significava dar honrarias a uma entidade não
existente, a alguém desprezado por todos. Os velhos revolucionários trocaram olhares
de indignação.
Na época dos grandes expurgos, Stalin decidiu liquidar esse seu
companheiro que sabia demais. Em abril de 1937, Yagoda foi preso e por fim
executado.
No julgamento, revelou-se que Yagoda, que era farmacêutico de
profissão, tinha um armário especial com venenos, de onde tirava vidrinhos que
confiava aos seus agentes. Tinha também ao seu dispor vários toxicologistas,
para os quais montou um laboratório especial, dotado de recursos ilimitados e
não controlados. Naturalmente, não é possível que Yagoda tenha organizado tudo
isso apenas para as suas necessidades pessoais.
As suspeitas de que Stalin tinha ajudado um pouco as forças
destruidoras da natureza no caso de Máximo Gorki começaram a surgir logo depois
da morte do grande escritor. Uma das tarefas do julgamento de Yagoda era livrar
Stalin dessa suspeita. Daí vinham as repetidas declarações de Yagoda, dos
médicos e de outros acusados, de que Gorki era “amigo íntimo de Stalin”, “uma
pessoa de confiança”, “um stalinista entusiástico”. Se apenas a metade disso
fosse verdade, Yagoda não teria decidido matar Gorki, e menos ainda confiado
esse plano a um médico do Kremlin, que poderia tê-lo destruído mediante um
simples telefonema a Stalin.
Durante os dias do julgamento, as acusações, assim como as confissões,
me pareceram fantasmagóricas. Mas as informações e análises posteriores me
obrigaram a modificar essa opinião. Nem tudo nos julgamentos era mentira. Nem
todos os envenenadores estavam sentados no banco dos réus. O principal deles
estava chefiando o julgamento por telefone. Foi apenas Yagoda quem desapareceu;
seu armário de venenos permanece.
No julgamento de 1938, Stalin acusou Bukharin de ter preparado um
complô contra a vida de Lênin, em 1918. Bukharin, ingênuo e ardoroso, venerava
Lênin, o adorava. Suas intenções não poderiam pautar-se pelas ambições
pessoais. Todas as acusações dos julgamentos de Moscou seguem este padrão:
Stalin achava que a melhor maneira de desfazer as suspeitas contra si mesmo era
atribuir o crime a um adversário e forçá-lo a “confessar”.
Lênin pediu veneno — se é que realmente o fez — no fim de fevereiro de
1923. No início de março, ele ficou novamente paralisado. Mas seu poderoso
organismo, sustentado por sua força de vontade, conseguiu reerguer-se. Na
chegada do inverno, ele começou a melhorar aos poucos e ter mais liberdade de
movimentos; lia um pouco, e pedia para outras pessoas lessem alto; a capacidade
de falar começou a voltar. Os médicos foram ficando cada vez mais esperançosos.
Stalin procurava o poder, todo o poder, a qualquer preço. Ele já o
detinha firmemente. Seu objetivo estava perto, mas o perigo que vinha de Lênin
estava ainda mais perto. Ao seu lado estava o farmacêutico Yagoda.
A notícia da morte de Lênin me foi dada quando eu e minha mulher estávamos
a caminho do Cáucaso, onde eu esperava livrar-me de uma infecção cuja causa
ainda é um mistério para os meus médicos. Imediatamente, telegrafei ao Kremlin:
“Creio necessário voltar a Moscou. Quando será o enterro”? A resposta veio
dentro de uma hora: “O funeral será no sábado. Você não conseguirá voltar a
tempo. O Politburo julga que em vista do seu estado de saúde, você deve seguir
viagem para Sukhum. Stalin”. Por que tanta pressa para o enterro? Por que
justamente no sábado? Mas eu não quis pedir que a cerimônia fosse adiada só por
minha causa. E só quando cheguei em Sukhum fiquei sabendo que o enterro fora
adiado para domingo.
Era mais seguro para eles, de todos os pontos de vista, manter-me à
distância até que o corpo fosse embalsamado e as vísceras cremadas.
Quando perguntei aos meus médicos em Moscou qual fora a causa imediata
da morte de Lênin, pela qual eles não esperavam, eles não conseguiram dar uma
explicação. A autópsia foi executada com todos os procedimentos necessários; o
próprio Stalin tomou conta disso. Mas os médicos não estavam à procura de
veneno. Segundo eles, a política fica acima da medicina.
Só reatei relações pessoais com Zinoviev e Kamenev dali a dois anos,
depois que eles já tinham rompido com Stalin. Eles evitavam fazer qualquer
referência à morte de Lênin. Apenas Bukharin, quando estava conversando em
particular, fazia às vezes algumas alusões estranhas e inesperadas. “Ah, você
não conhece o Koba (Stalin)”, dizia ele com um sorriso assustado. “Koba é capaz
de qualquer coisa”.
Quando o teto já caiu e as portas e janelas se quebraram, fica difícil
morar numa casa. Hoje há ventos frios soprando por todo o nosso planeta. Todos
os princípios morais tradicionais estão cada vez mais debilitados, e não só os
que vêm de Stalin. Mas uma explicação histórica não é o mesmo que uma
justificação. Nero também foi produto da sua época. Mas depois que ele morreu,
suas estátuas foram quebradas e seu nome apagado de todo lugar. A vingança da
história é mais terrível do que a vingança do mais poderoso secretário-geral.
* Este artigo foi publicado originalmente em 10 de agosto de 1940, dez dias antes de Trotsky ser assassinado por um agente de Stalin, no México.
