O Blog “Acender uma Fogueira” publica uma série de textos em
homenagem ao grande dirigente bolchevique Lenin, às vésperas de se
completarem 91 anos de sua morte. É necessário que as novas gerações conheçam
a história política do Partido Bolchevique e do justo ódio recebido por parte
da pequena burguesia e dos capitalistas,de toda gama de reformistas e
revisionistas do marxismo, para que, compreendendo o passado, sejam tiradas
as ácidas lições da luta de classes, atuar sobre o presente. Este primeiro
artigo é a transcrição de um discurso repleto de emoção feito por Trotsky na
sessão do Comité Executivo pan-russo realizado no dia 2 de setembro de 1918
analisando o atentado sofrido por Lenin. No dia 30 de agosto, Lenin após
discursar numa fábrica em Moscou, ao sair e antes de entrar no carro, Fanny
Kaplan (membro do Partido Social Revolucionário) gritou seu nome. Ao virar,
ela disparou três tiros: um atravessou o casaco de Lenin; os outros dois
atingiram o ombro e o pulmão esquerdo dele, ferimentos que nunca foram
curados e que influenciaram no agravamento da saúde do dirigente bolchevique.
Isto tudo durante um gravíssimo momento de crise por que passavam os
Bolcheviques no comando do recém-parido Estado: os exércitos brancos cercavam
e estavam na iminência de tomar o frágil regime operário erguido na Revolução
de 1917, contabilizando que metade do território russo estava nas mãos dos exércitos
contrarrevolucionários financiados pelas grandes potencias estrangeiras e,
claro, o fracionismo que impregnava as hostes do partido paralisando-o; a
produção industrial e agrícola sofriam inúmeras sabotagens por parte dos
patrões e kulaks. No contexto desta drástica realidade os bolcheviques assinaram
a dura “Paz de Brest-Litovski” e, por questão de segurança e estratégia
militar, Moscou se tornou a capital soviética, medidas propostas estrategicamente
por Lenin que a História demonstrou estarem plenamente corretas!
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Lenin Ferido
Leon Trotsky
Camaradas, é assim que interpreto as fraternas aclamações que acabo de
ouvir: hoje, nestas horas dolorosas e nestes dias difíceis, todos sentimos,
como se fôssemos irmãos, uma necessidade profunda de nos unir, de nos ligar de
mais perto às organizações soviéticas, de nos agrupar mais estreitamente sob a
bandeira comunista. Nestes dias e nestas horas cheias de perigos, enquanto o
porta-bandeira do proletariado, o nosso, e, podemos dizer, o do mundo inteiro,
se encontra estendido flutuando no seu leito de dor contra o terrível espectro
da morte, sentimo-nos mais próximos uns dos outros do que nas horas de
vitória...
A notícia do atentado contra o camarada Lenin chegou-nos, a alguns
camaradas e a mim, em Svisjsk, na frente de Kasan. Aí, recebíamos golpes, uns vindos
da direita, outros da esquerda, outros em pleno rosto. Mas este novo golpe,
vindo da retaguarda longínqua, feriu-nos nas costas. Esse golpe traiçoeiro
abriu uma nova frente - a mais dolorosa, a mais alarmante no momento atual: a
frente onde Vladimir Ilitch luta contra a morte. E quaisquer que sejam ainda as
derrotas que possam vir a atingir-nos nesta ou naquela fase da grande batalha -
creio firmemente na próxima vitória que obteremos unidos -, para a classe
operária da Rússia e do mundo inteiro nenhuma derrota parcial seria tão
dolorosa, tão trágica como aquela que nos ameaça, se a batalha travada à
cabeceira do nosso dirigente terminar por uma derrota.
Não será difícil imaginar toda a violência de ódio concentrado que esta
grande figura suscitou e suscitará em todos os inimigos da classe operária.
Pois a natureza agiu bem quando fez incarnar num só homem a imagem do
pensamento revolucionário e a energia indomável do proletariado. Essa figura é
Vladimir IIitch Lenin.
A galeria dos chefes operários e dos militantes revolucionários é muito
numerosa e diversa; muitos de entre nós, que trabalham há já quase trinta anos
pela causa da revolução, tiveram a oportunidade de encontrar, em diversos
países, tipos muito diferentes do dirigente operário, do representante
revolucionário da classe operária. Mas só no nosso camarada Lenin reconhecemos
o homem feito para a nossa época de sangue e de ferro.
Atrás de nós ficou a época do desenvolvimento denominado pacífico da
sociedade burguesa, durante a qual as oposições de interesses se multiplicavam
gradualmente; era então para toda a Europa o período dito da paz armada e o
sangue quase que só corria nas colônias onde o capital ganancioso torturava os
povos mais atrasados. A Europa gozava a paz sob o regime do militarismo
capitalista.
Então se formavam, se definiam os chefes mais representativos do
movimento operário europeu. Entre eles conhecemos o maravilhoso dirigente que
foi Augusto Bebel, o grande ausente. Ele refletia, porém, a época de um
desenvolvimento progressivo e lento da classe operária. Muito corajoso, dotado
de uma energia de ferro, distinguia-se também por uma extrema prudência nos
seus movimentos; apalpava o terreno, adotava uma estratégia de contemporização
e de preparação. Exprimiam-se nele um crescimento gradual, uma acumulação
molecular das forças do povo operário; o seu pensamento avançava, mas avançava
passo a passo, assim como a classe operária alemã, na época da reação mundial,
se elevava aos poucos, libertando-se das trevas e dos preconceitos. A natureza
espiritual desse grande Alemão crescia, desenvolvia-se, tornava-se mais forte e
mais elevada, mas sempre no mesmo terreno de espera e de preparação. Era assim
Augusto Bebel, nos seus pensamentos e métodos, a figura mais bela duma época
que se afasta já na eternidade do passado.
A nossa época é feita de uma outra matéria. Todas as oposições que
outrora se manifestavam com uma frequência cada vez maior conduziram a uma
formidável explosão; dilaceraram a superfície da sociedade burguesa; todas as
bases do capitalismo mundial foram abaladas pela terrível carnificina dos povos
europeus. Foi esta época que nos desvendou todos os antagonismos de classes,
que colocou as massas populares perante a terrível realidade, mostrando-lhes
que milhões de homens teriam de perecer devido aos interesses de cínicos
oportunistas. Ora, nesse tempo, a história da Europa Ocidental esqueceu, ou não
se lembrou, ou foi incapaz de encontrar um chefe, o que é muito compreensível:
porque todos aqueles que, na véspera da guerra, gozavam particularmente da
confiança dos operários da Europa eram os representantes de ontem e não os de
hoje...
E quando se iniciou a nova época, os antigos chefes foram incapazes de
estar à sua altura: foi o tempo das convulsões terríveis e das batalhas
sangrentas.
A História quis então, e não por acaso, criar na Rússia uma figura de
um só bloco, uma figura que representasse bem toda a rudeza e a grandeza do
nosso tempo. Repito que não foi por acaso.
Em 1847, a Alemanha pouco desenvolvida fez surgir no seu seio Marx, o
maior militante do pensamento, que previu e indicou as vias da nova História.
Sim, a Alemanha era então um país atrasado, mas era intenção da História
incitar os intelectuais alemães a um período de desenvolvimento revolucionário;
e o maior dos representantes da inteligência, rico de toda a ciência adquirida,
cortou relações com a sociedade burguesa, ergueu-se no terreno do proletariado
revolucionário, elaborou um programa do movimento operário uma teoria do
desenvolvimento da classe trabalhadora.
A nossa época foi chamada a realizar aquilo que Marx vaticinou. Para
isso, tinha necessidade de novos chefes animados do grande espírito do nosso
tempo; com efeito, a classe operária, elevando-se finalmente à altura da tarefa
que lhe cabia, apercebia-se claramente do cume elevado que lhe era necessário
transpor se quisesse salvar a humanidade e não deixá-la apodrecer, como uma
carcaça, à beira do grande caminho da História.
Nessa época, foi a Rússia que criou um novo chefe. Tudo o que havia de
melhor nos intelectuais revolucionários de outrora, o seu espírito de
abnegação, a sua audácia, o seu ódio à opressão, tudo isso se concentrou nessa
figura que, no entanto, desde a sua juventude se tinha afastado sem retorno do
mundo dos intelectuais, de cuja ligação com a burguesia se apercebia com
nitidez, assumindo na sua pessoa todo o sentido e essência do movimento
operário. Apoiando-se no jovem proletariado revolucionário da Rússia,
utilizando a riqueza da experiência do movimento operário mundial, servindo-se,
para atuar, da sua ideologia como de uma alavanca, essa figura ergueu-se no
firmamento político em toda a sua grandeza. Trata-se da figura de Lenin, o
maior homem da nossa época revolucionária. (Aplausos.)
Eu sei e vós sabei-lo igualmente, camaradas, que o destino da classe
operária não depende de indivíduos; isso não significa, porém que as
individualidades sejam indiferentes à história do nosso movimento e ao
progresso da classe operária. O indivíduo não pode modelar a classe operária à
sua imagem, nem indicar ao proletariado, conforme as suas preferências, que
siga este ou aquele caminho; pode, todavia, contribuir para a realização das
tarefas indispensáveis e acelerar o movimento para o objetivo final.
Os críticos de Karl Marx afirmavam que ele tinha previsto a revolução
como estando muito mais próxima do que o estava na realidade. Ao que poderia
responder-se, com muita razão, que ele se colocara no alto de uma montanha e
que, consequentemente, as distâncias lhe tinham parecido mais curtas.
Vladimir Ilitch foi criticado mais de uma vez por diversos militantes,
encontrando-me eu entre eles, por parecer ignorar certas causas secundárias,
certas circunstâncias acessórias. Devo dizer que, numa época de desenvolvimento
“normal”, quer dizer lento, talvez isso tivesse constituído um defeito para um
homem político; contudo, o maior privilégio do camarada Lenin, na sua qualidade
de chefe de uma nova época, foi o de ver tudo o que era acessório, tudo o que
era exterior, tudo o que era secundário recuar e tombar na sua frente, enquanto
apenas subsistia o antagonismo essencial, irredutível, das classes sob a forma
terrível da guerra civil. Lançando para longe o seu olhar de revolucionário, Lenin
tinha o dom de aperceber e de indicar o principal, o essencial, o indispensável,
elevado ao mais alto grau. E aqueles que como eu puderam durante esse período
observar de perto o trabalho de Vladimir Ilitch, a atividade do seu pensamento,
esses sentiram necessariamente uma admiração sem limites - diria mesmo: sentiram-se
transportados pela admiração - perante essa perspicácia, esse pensamento
penetrante que rejeita tudo o que é exterior, o fortuito, o superficial, e
traça as vias principais e os meios de ação.
A classe operária só aprende a apreciar aqueles de entre os seus chefes
que, tendo desbravado o caminho para o seu desenvolvimento, marcham com um
passo seguro e perseverante, muito embora os preconceitos do proletariado lhes
criem por vezes obstáculos. Aos poderosos dotes de pensador de Vladimir Ilitch
vem juntar-se uma vontade inabalável; e, quando reunidas, estas qualidades
constituem a índole do verdadeiro chefe revolucionário, corajoso, irresistível
no pensamento, inabalável na vontade.
Que felicidade para nós o facto de tudo o que dizemos, ouvimos e lemos
nas resoluções sobre Lenin não seja para deplorarmos a sua morte! E, todavia, o
perigo foi muito grande... Estamos certos que sobre esta nova e tão próxima
frente de batalha, situada num quarto do Kremlin, a vida vencerá e que Vladimir
Ilitch voltará em breve para as nossas fileiras.
Se, como já afirmei, camaradas, Lenin incarna o pensamento corajoso e a
vontade revolucionária da classe operária, poder-se-á ver uma espécie de
símbolo no facto de nestas horas dolorosas em que a classe operária da Rússia,
empregando todas as suas forças, combate nas frentes exteriores os
Checoslovacos, os guardas brancos, os mercenários da Inglaterra e da França - o
nosso chefe resistir aos ferimentos, defender-se contra a morte que queriam
infligir-lhe os agentes desses mesmos guardas brancos, desses Checoslovacos,
desses mercenários da Inglaterra e da França. Existe, entre estas
circunstâncias, um elo interior. Existe, nestes acontecimentos, uma profunda
correspondência histórica. É verdade sentirmos e vermos todos, na nossa luta na
frente checoslovaca, anglo-francesa, na frente contra os guardas brancos,
sentirmos com toda a certeza aumentarem as nossas forças dia a dia, hora a hora
(Aplausos) - posso afirmá-lo como testemunha ocular, pois volto do teatro de
operações - sim, cada dia estamos mais fortes, seremos mais fortes amanhã do
que o éramos ontem e depois de amanhã mais fortes do que no dia anterior - e
não duvido estar próximo o dia em que poderemos dizer que Kasan, Simbirsk,
Samara, Oufa e outras cidades, momentaneamente ocupadas pelo inimigo,
regressarão à nossa família dos Sovietes. Esperamos também que o
restabelecimento de Lenin já não tarde muito.
Neste momento preciso, a bela imagem do chefe ferido, fora de combate
durante algum tempo, eleva-se perante nós e impõe-se aos nossos olhares.
Sabemos que não nos abandonou nem por um minuto, pois, mesmo abatido pelas
balas traiçoeiras, ele nos exorta, nos chama e nos convida a avançar. Não vi um
único camarada, um único operário honesto cujos braços tenham caído com
desânimo perante a notícia do pérfido atentado; vi, contudo, dezenas de outros
que cerravam os punhos, que procuravam apoderar-se de armas; ouvi centenas e
milhares de homens jurar vingança implacável aos inimigos de classe do
proletariado. Inútil contar-vos quais foram os sentimentos dos militantes
conscientes, combatendo na frente de batalha, ao saberem que Lenin jazia,
ferido por duas balas. Ninguém ousaria afirmar que Lenin, devido ao seu
carácter, não tenha a resistência do metal; o inimigo quis que até na sua carne
houvesse metal; isso fará com que seja ainda mais amado pela classe operária da
Rússia.
Ignoro se as nossas palavras, se o bater dos nossos corações serão
ouvidos à cabeceira do camarada Lenin; não duvido, porém que ele tenha a
certeza de que estamos com ele. Atormentado pela febre, ele sabe, contudo que,
à semelhança do seu, os nossos corações batem dupla, triplamente mais forte.
Agora, todos compreendemos mais claramente do que nunca que somos membros duma
mesma família comunista soviética. Jamais nos pareceu tão secundária a vida
individual deste ou daquele de entre nós num momento em que está em perigo a
existência do maior homem do nosso tempo. Qualquer imbecil pode disparar sobre Lenin
e perfurar-lhe o crânio; mas seria difícil encontrar de novo uma cabeça tão
bela, e a própria natureza não poderia reconstituir a sua obra com uma tão
grande facilidade.
Mas não, em breve se levantará para pensar, para criar, para combater
ao nosso lado. Quanto a nós, prometemos ao nosso chefe bem-amado mantermo-nos
fiéis à bandeira da revolução comunista, enquanto o pensamento subsistir em
nós, enquanto o sangue fizer vibrar os nossos corações. Lutaremos até à última
gota de sangue, até ao nosso último sopro, contra os inimigos da classe
operária. (Prolongadas salvas de palmas).
